O Kurarana ou Pico 31 de Março, conhecido na Venezuela como Pico Phelps, ocupa o posto de segunda montanha mais alta do Brasil, com 2.974,18 metros de altitude, conforme atualização feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2016 . Ele está situado na remota Serra do Imeri, exatamente na linha de fronteira entre o Brasil e a Venezuela. No território brasileiro, integra o município de Santa Isabel do Rio Negro, embora o principal ponto de apoio na região seja São Gabriel da Cachoeira, a cerca de 140 km em linha reta.
Esse pico faz parte do mesmo maciço do Pico da Neblina, do qual está separado por menos de 700 metros. A diferença de altitude entre os dois é pequena, pouco mais de 20 metros, e ambos são conectados por uma crista curta e elevada . Enquanto o Neblina apresenta um formato mais imponente e pontiagudo, o 31 de Março tem relevo mais arredondado e discreto, o que muitas vezes dificulta sua identificação em fotos, dependendo do ângulo. Apesar de também se projetar no território venezuelano, sendo inclusive o ponto mais alto do país fora da Cordilheira dos Andes, o pico costuma ser pouco destacado por lá, já que é frequentemente considerado apenas uma extensão do próprio Neblina.
Toda essa região está inserida no Parque Nacional do Pico da Neblina (Yaripo) e dentro de terras indígenas do povo Yanomami. Por isso, o acesso é altamente controlado e só pode ser realizado com autorização oficial, respeitando regras ambientais e culturais rigorosas.
A história do nome do Pico 31 de Março está diretamente ligada ao contexto político do Brasil nos anos 1960, e não a características naturais ou culturais da região.
Durante as expedições de reconhecimento e demarcação de fronteira realizadas pelo Exército brasileiro na Serra do Imeri, especialmente por volta de 1965–1966, os militares alcançaram os pontos mais altos da região, incluindo o Pico da Neblina e o pico vizinho.
Naquele momento, o país vivia sob a recente ditadura instaurada após o Golpe de 31 de março de 1964. Como era comum na época, havia um esforço simbólico de marcar presença e exaltar o regime também através da nomeação de lugares estratégicos.
Foi assim que o pico recebeu o nome “31 de Março” — uma referência direta à data do golpe, chamada pelos militares de “Revolução de 31 de Março”. O batismo funcionava como uma homenagem ideológica e também como afirmação de soberania em uma área remota e pouco conhecida do território brasileiro.
Do outro lado da fronteira, na Venezuela, o mesmo maciço está associado a outro nome: Pico Phelps, ligado ao explorador e ornitólogo americano William H. Phelps Jr., o que mostra como a mesma montanha pode carregar identidades diferentes dependendo do contexto histórico e nacional.
Com o passar do tempo, mesmo após o fim da ditadura, o nome “Pico 31 de Março” permaneceu em uso no Brasil. Hoje ele é aceito oficialmente e utilizado por montanhistas, pesquisadores e expedições, embora sua origem ainda carregue esse peso histórico pouco conhecido por muita gente.
É um daqueles casos em que o nome de uma montanha não vem da natureza… mas da política.

