Um cacho de sempre-vivas foram as primeiras flores que ganhei na vida. Eu era criança, e de vez em quando Papai fazia longas expedições de caça com os amigos; numa dessas, lá pelas bandas da Serra do Cabral, ele voltou trazendo um cacho de chuveirinho, a coisa mais linda que meus olhos de criança já tinham visto, e lembro com carinho de tê-la em casa durante muito tempo. Da mesma época – e talvez da vida inteira – lembro também das histórias das andanças dele pelo sertão, das aparições de pantumias, palavra que oficialmente nem existe, mas que no nosso contexto equivale a seres míticos, animais e homens de proporções descomunais, de luzes misteriosas. Já quase adulta fui obrigada a ler Guimarães Rosa; não gostei de imediato não, mas me rendi a dois aspectos. O primeiro: o linguajar – um livro que continha expressões pouco usuais, mas que me soavam familiares. O segundo: toda a minha região geográfica de origem está na obra, o que deu um ar de importância a uma infinidade de lugares pacatos que eu julgava irrelevantes. Mais tarde um pouco, quando me apaixonei pelo Cerrado e me reconheci cria dele, todos esses retalhos se juntaram numa coisa só e dizem muito sobre minhas paixões e identidade. Daí me dei conta de que dos cenários da obra de Guimarães e do Cerrado, uma delas eu só reconheci por foto e por imaginação: as Veredas. Veredas são os oásis do Cerrado; áreas alagadas, com vegetação diferente do entorno, marcada pela presença de palmeiras Buritis. Grande parte das águas que formam as Veredas vem do lençol freático, o que mesmo em tempo de seca garante um ambiente seguro onde inúmeras espécies de animais vêm para se alimentar e reproduzir. Veredas são lugares de vida, e que eu desejava muito conhecer. Em maio do ano passado (2024), durante uma trilha com amigos, compartilhei com Ernani sobre o sonho de conhecê-las; os olhos dele brilharam na hora, e visivelmente emocionado ele me contou sobre um encontro com um personagem que eu entendi como um guardião das Veredas. Fiquei feliz com essa conexão, mas nunca mais falamos no assunto, até que no início desse ano a Borandá propôs uma travessia que incluiria esse cenário. O roteiro me encheu os olhos: partiríamos de Curimataí, cruzando parte do Parque Nacional das Sempre-Vivas e saindo pela vila de Santa Bárbara, distrito de Augusto de Lima, bem no centro do estado de Minas. Uma caminhada difícil e longa, carregando peso e sob o Sol forte do Espinhaço. Mas eu não seria doida de não viver essa aventura, e foi assim que o sonho começou a tomar forma.
Dia 1: Parque Nacional das Sempre-Vivas
Chegamos a Curimataí no final da madrugada. Sonolentos e cheios de expectativa, organizamos nosso café da manhã já na estradinha por onde começamos a andar. Ajeitamos as mochilas e partimos. Os primeiros quilômetros são sempre desafiadores; a respiração aprendendo o ritmo e os músculos se ajustando enquanto a gente começa a subir. Teríamos bastante subida nesse dia, a princípio nada íngreme, porém constante. Da minha posição habitual de fecha-trilha, ora caminhava sozinha, ora com dois ou três companheiros. Aprendi logo a parar de vez em quando e olhar pra trás, contemplando a Serra do Cabral lá longe enquanto retomava o fôlego. A paisagem começa a me abastecer aí. Fizemos a primeira parada num antigo curral de pedras, e pouco adiante ganhamos uma área de campos rupestres onde começa a festa para os olhos.

A vegetação é predominantemente baixa, pontilhada por alguns cactos, arbustos, bromélias, lavoisieras e outras tantas flores de cores diversas. É também nesse trecho que as donas da casa começam a dar as caras: as Sempre-Vivas; além do “chuveirinho”, vimos pelo menos outras quatro espécies, de cores e formatos diferentes. Não saber o nome delas não diminui nosso encantamento; sabemos que o parque existe para protegê-las e comemoramos a presença delas ali. O terreno que antes era aquela terra dura, alaranjada e cheia de cascalho agora dera lugar a uma terra preta, úmida, meio arenosa. A trilha era estreita, tipo uma pequena vala, ladeada por um terreno esburacado camuflado pela vegetação. Comentei com Janaína que seria melhor andarmos pela trilha mesmo, já que o terreno irregular das margens parecia propício para acidentes. E foi logo aí nosso primeiro susto: uma das integrantes do grupo torceu o pé, e parecia bem feio. Paramos pelo tempo necessário para socorrê-la, desejando que não fosse grave. Com o profissionalismo e serenidade que eu já tinha visto em ação, Ernani e Rodrigo (nossos condutores) conseguiram acalmá-la e ela decidiu continuar. Após redistribuir o peso da mochila da Rubia, seguimos até a beira de um riachinho bem tímido, com nova pausa para lanche antes de entrar no trecho mais difícil do dia. Andamos um pouco depois de atravessar a água e ali acaba tanto a estradinha quanto a trilha, e começa um longo trecho de vara-mato e descida. Nessa parte do caminho o corpo entra num modo de funcionamento diferente, a gente precisa abrir o mato com os bastões e em seguida identificar um ponto seguro para pisar, desviando a cabeça dos cipós e galhos, pulando pedras. Esse trecho é longo e desgastante, mas como sabíamos que seria o último desafio do dia, seguimos animados. Chegamos à beira do rio, onde há uma série de quedas d’água, uma área suficientemente aberta para armamos as barracas e uma pedra tipo lajeado formando uma prainha. Montamos nosso acampamento, e já sem o peso das mochilas, seguimos rumo à grande atração do dia: a Cachoeira de Santa Rita. A caminhada era curta, com alguns desafios para pernas pequenas, transpostos com a ajuda de Alexandre e Ernani. A gente chega primeiro na parte alta da cachoeira, e fica impressionado com a grandiosidade do que vê. O Sol, que ficava meio escondido durante toda a manhã, tornando nosso caminho mais agradável, agora tinha aparecido e junto com o azul do céu, com os tons de marrom e cinza das pedras, com os inúmeros verdes da vegetação e a cor escura da água formava uma paisagem de encher os olhos. O coração faz festa, cada um contempla a seu modo. Atravessando o rio, a trilha para a parte baixa da cachoeira é uma pirambinha sombreada e úmida, percorrida sem sofrimento. Lá de baixo, a queda d’água continua a impressionar: é muito alta, é larga, é volumosa e espalha água pelo ar antes de cair com força, formando poços enormes onde os amigos foram nadar. Eu escolhi meu cantinho de contemplação antes de chegar aos poços; sentada numa pedra de frente para a cortina d’água deixei os olhos passearem pelas rochas, recebi no rosto a chuvinha que o vento desviava da cachoeira, acompanhei o voo das andorinhas para trás da queda, enquanto admirava o arco-íris se formando lá embaixo. Foi meu tempo de agradecer ao Criador por permitir que criaturas pequenas como eu sejam abastecidas por belezas tão enormes quanto aquela. De volta ao acampamento, tomamos banho gelado, preparamos nossas comidinhas e ficamos ali na beira do rio admirando o Céu. O coração quis ficar mais para contemplar as estrelas, mas o corpo cansado não quis saber de outra coisa que não fosse dormir.

Dia 2: Veredas
Com os barulho das cachoeiras ali perto, todos dormimos bem, e com energias renovadas nos aprontamos para caminhar. O segundo dia trazia os maiores desafios e as maiores expectativas; seria a caminhada mais longa, com cerca de 20 km, saindo do Parque Nacional por uma estradinha pouco usada, com previsão de calor e sol, com bastante subida e um longo trecho sem oferta de água. Começamos varando mato de novo, passando por um lamaçal até atravessarmos o Rio Preto em dois pontos antes de ganhar a estradinha. Subimos pelo cascalho solto e sob sol forte um trecho sem muitos atrativos. Começando a dar sinais de desidratação, precisei parar ao final da subida, e tive os cuidados de Alexandre, Neliane e Rodrigo até a alma voltar ao corpo. Com o coração grato pelas companhias voltei a caminhar, e a partir daí havia muita beleza no caminho. Tínhamos subido bastante, e nesse ponto avista panorâmica do Espinhaço ia trazendo a inspiração de volta. Montanhas a perder de vista, com aquele verde vivo do pós-chuvas, contrastando com um teto de nuvens enfileiradas sob o céu azul. Saindo do parque a estrada fico mais plana e logo apareceu o primeiro grande campo de Sempre-Vivas do dia. Parei pra admirar a dança dos cachos de flor ao vento enquanto os amigos faziam os registros mais perfeitos. Avançando alguns quilômetros, avistamos a igrejinha de Santa Rita, onde a possibilidade de presença humana se confirmou, para nossa alegria. Uma família estava lá, preparando o espaço para a festa da Santa que aconteceria nos dias seguintes. Gente de uma hospitalidade que não se explica. E comprovando que o mundo é um ovo, eles conheciam meus parentes que moram em Curimataí, e o tempo não me permitiu visitar. Eles nos ofereceram cadeiras, água fresca, banheiros de verdade, prosa boa e até comida. Como recusamos o almoço, uma das senhoras veio lá de dentro com um saco cheio de mexerica, e aí sim fizemos a festa! Comemos, conversamos, quem teve perna dançou um forrozinho, compramos a rifa da festa, trocamos os curativos dos pés, e agradecidos, seguimos de coração quentinho. Com as belíssimas formações do Espinhaço no horizonte, caminhamos enquanto houve estrada. Nesse ponto, um terreno cercado impediu nossa passagem, e dessa vez nos embrenhamos no meio do pasto, andando em meio ao capim alto. Paramos um pouco antes de voltar à trilha original e fomos encorajados a manter o foco no córrego onde pararíamos para um banho. O trecho a seguir era tenso: uma subida infinita por um terreno de pedras brancas que refletiam o Sol na nossa cara. Inicialmente eu o chamei de pedregulho desgraçado, porque exigia demais do corpo. Mas à medida em que subíamos e eu fazia paradas para respirar, a paisagem estonteante do Espinhaço me dizia o contrário: aquela beleza toda era exatamente a graça que precisávamos para atravessar o pedregulho. Chegamos a um campo mais aberto e muito bonito, com aquele capim a vermelhado pontilhado de flores coloridas que renovaram minha alegria. Nesse ponto passamos por um casal de apanhadores de flores, trazendo feixes enormes de Sempre-Vivas na garupa dos cavalos. Tão simples, tão bonito, tão ancestral, tão poético… Segui emocionada, agora cruzando pequenos campos de Sempre-Vivas até o Córrego Dois Paus. Tomei meu segundo tombo num charco ali perto, caindo de bunda na lama. O primeiro, também inofensivo, havia sido ao atravessar o rio no dia anterior. Chegar ao córrego foi um alívio! Uma pausa para comer, tirar as botas, reabastecer as garrafas e alinhar as orientações para o último trecho.

Pouco antes do córrego, Ernani tinha me mostrado as copas do Buritis lá longe. Eram as Veredas. “Passaremos por elas?” – perguntei – “passaremos bem ao lado” foi a resposta que fez meu coração disparar e foi difícil acalmá-lo no trecho seguinte. Com um grupo bem à frente e outro pouco atrás, caminhei sozinha nesse percurso. Os tons de dourado de fim de tarde no Cerrado começando a aparecer, milhares de Sempre-Vivas e outras flores pontilhando a vegetação de cor, canto de aves indo em busca da última refeição do dia. Eu sentia como se estivesse indo pela primeira vez encontrar pessoalmente alguém a quem eu já amava. Já nos conhecíamos, agora era só reconhecer. Com o coração disparado, cheguei à primeira Vereda. E era tudo o que eu tinha imaginado: o espelho d’água encoberto por vegetação, as aves em festa, a majestade dos Buritis farfalhando suas folhas ao vento. Não segurei o choro. Nada havia me preparado para aquela beleza. Meu encantamento beirava a reverência, e eu só sabia agradecer a Deus pela perfeição daquele momento. Não tive pressa. Os amigos que vinham atrás me alcançaram, e contagiados pela minha emoção, ficamos ali contemplando juntos, ouvindo o vento nas folhas do Buritis. Foram minutos tão surreais, que dissolveram a tensão e o cansaço, dando lugar a uma admiração e uma alegria que trouxeram a energia necessária para os quilômetros finais desse dia. Eu ainda não tinha notado, mas a partir dali seriam dezenas de Veredas em sequência, com uma infinidade de Buritis e nós, caminhantes exaustos e felizes, tudo imerso naquela luz dourada do fim do dia. Já estava escuro quando chegamos a uma antiga casinha próxima a uma barragem, onde montamos nosso último acampamento. Com a luz das lanternas, descemos até o rio para o banho gelado e para reabastecer nossas garrafas. Nessa noite fizemos questão de ficar juntos. Conversamos, rimos, nos emocionamos e compartilhamos um delicioso arroz-carreteiro preparado pelo Rodrigo. O céu estrelado deu um show, que Tati e Alcimar registraram em imagens lindas. Podres de cansaço, fomos dormir. Ao contrário da primeira noite, nessa o meu sono não veio; fiquei acordada, revivendo as emoções do dia e tentando entender se o barulho lá fora seria o vento ou se estávamos recebendo a visita de algum morador local. Próximo ao acampamento nós tínhamos visto várias pegadas de animais na areia, mas não foi dessa vez que tivemos a sorte de encontrá-los.
Dia 3: a vila de Santa Bárbara

No último dia, já bem cansados, concordamos em sair mais tarde. Tomamos café da manhã, desmontamos acampamento e arrumamos as mochilas com calma. O trajeto seria praticamente todo de descida até chegar à vila, passando antes por uma barragem para refrescar o calor. Com bolhas nos dois pés, andei a passos de tartaruga durante toda a manhã, parando algumas vezes para refazer os curativos. Num percurso sem muitos atrativos disputando o olhar, a negociação foi pesada entre corpo e cérebro, um querendo parar, outro determinado a caminhar. As conversas sempre empolgantes com Rubia e Ernani iam ajudando a abstrair o desconforto, e quase não acreditei quando Rodrigo improvisou uma linha de chegada, tornando nossa entrada na vila ainda mais emocionante. O charme da vila de Santa Bárbara acolhe a gente imediatamente, e a comida de verdade preparada e servida com carinho pela Ivone nos lembram porque Minas Gerais é conhecida pela hospitalidade. Já de pés descalços na grama, ao ligar o telefone para sinal de vida à família, lembro que estou a exatos 90 quilômetros da casa de Mamãe. A gente se engana às vezes, achando que precisa ir muito longe para ver belezas… Tem sonhos que se realizam mesmo é no “quintal de casa”.
Raquel Quintão
maio/2025

